ARTIGO
Santo Antônio da Platina -PR, Brasil
27/05/2024
O paradoxo do
conhecimento: entre a
libertação e o sofrimento*
Neste ensaio,
pretendemos estabelecer uma reflexão sobre o conhecer e suas implicações
paradoxais, que se encontram entre a libertação e o sofrimento que ele carrega.
O filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860), influenciado por Immanuel
Kant e impactado pelo pensamento de Friedrich Nietzsche, entre outros
intelectuais e escritores, exerceu forte influência.
Schopenhauer
criticou as explicações racionalistas sobre o fundamento da realidade e dizia:
"Quanto mais claro é o conhecimento do homem, quanto mais inteligente ele
é, mais sofrimento ele tem; o homem que é dotado de genialidade sofre mais do
que todos." O autor trabalha com a ideia de "vontade", que
sugere um poder ou impulso dos seres humanos para a vida, uma vontade de viver
e de fazer descobertas, sempre em busca de conhecimentos, empreendendo uma
investigação empírica que garante uma explicação básica e factível de quaisquer
ações humanas.
Nesse sentido,
o autor levanta a questão da relação entre inteligência, consciência e
sofrimento humano, algo extremamente pertinente para os dias de hoje. Ele
propõe uma ideia profundamente existencial, pois implica o uso de nossa mente,
do pensamento, para estabelecer o conhecimento. Sua afirmação sugere que quanto
mais alguém é capaz de compreender a realidade, mais consciente se torna das
complexidades e determinações da existência, o que inclui o sofrimento humano.
Aqueles que se aprofundam nas formas de obter o conhecimento, tanto a nível metodológico
quanto teórico, e conseguem se aproximar dele, são particularmente suscetíveis
a esse tipo de conscientização e enfrentam desafios que vão além daqueles
enfrentados pelo senso comum, geralmente de baixo nível de pensamento e
satisfeitos com explicações simplistas.
Conhecer com
profundidade e de forma crítica está ligado à capacidade de enxergar além das
superfícies, de mergulhar nas profundezas das questões existenciais da vida
humana. Isto implica ir aos limites do que é conhecido e das novas possibilidades
ainda não aventadas, buscando compreender os elementos subjacentes às ilusões e
superficialidades alienantes que muitas vezes nos cegam. Assim, expõe-se a
natureza contraditória da vida, nossos potenciais e nossos limites, o
estranhamento e o desvelar, as sombras e as luzes dos fenômenos de nosso tempo.
Cada
aproximação inteligente, imaginativa e criativa ao conhecimento nos leva a ir
mais fundo, a buscar sempre outras e novas respostas, onde outros, que se
encontram com suas preocupações da vida cotidiana, podem não ousar procurar. O
problema é que toda descoberta nos coloca diante de desafios compreensivos
paradoxais que acompanham esse desvelar, esse descobrimento. Cada descoberta é
um passo num caminho desconhecido que possibilita a criação, a inventividade, a
inovação e, ao mesmo tempo, nossa sujeição a possíveis atos destrutivos, como
no caso da energia nuclear e seu uso paradoxal.
Nessa
perspectiva, o conhecimento possibilitado pelo uso da inteligência imaginativa
pode ser fonte de grandes descobertas e realizações, porém pode trazer
revelações que, se utilizadas sem uma ética sólida, podem nos conduzir a
maiores problemas futuros. Nosso autor em destaque salienta: "Ficamos cada
vez mais indignados quando alcançamos um conhecimento suficiente da
superficialidade e da futilidade dos pensamentos, da limitação dos conceitos,
da pequenez dos sofrimentos, do absurdo das opiniões e do número de erros da
maioria das cabeças". Com essa análise, tudo indica que toda descoberta
acompanha essas capacidades; pensar pode tornar o mundo um lugar melhor para
viver, com toda sua complexidade presente na Teia da Vida, e também pode tornar
a vida humana uma aventura menos perigosa e desencantadora. Afinal, este é um
dos fundamentos da ciência: tornar a vida melhor, em busca de seu
reencantamento, sem destruir a natureza.
Estamos
rodeados de incertezas entre o passado e o futuro, entre as revelações e o
encobrimento, entre as descobertas e seus usos práticos. Como Schopenhauer
afirmava: “O mundo é minha representação.” Mesmo que cada indivíduo possa
incorporar essa afirmação, de que vê e entende o mundo à sua forma, só o ser
humano que conhece de forma profunda e crítica pode tornar-se dono dela, ou
pelo menos manter uma significativa aproximação. O autor reforça:
"Importante não é ver o que ninguém viu, mas sim pensar o que ninguém
nunca pensou sobre algo que todo mundo vê". Este parece ser nosso grande
desafio hoje: tentar ver, entender e analisar o que está aí e que pouco
interesse desperta no cotidiano racionalizado de uma vida pragmatizada pelos
valores mercadológicos que nos rodeiam.
Mesmo sabendo
do risco que nos acompanha por qualquer caminho do conhecimento, onde não há
uma segurança plena, todo e qualquer avanço da inteligência crítica carrega
consigo revelações, esperanças, novas utopias e, ao mesmo tempo, os desvios
sombrios do conhecimento que possam levar ao descontentamento, à descrença no
mundo e até mesmo ao caos civilizatório.
*Gabriel Barbosa Bassani é geógrafo
**Paulo Bassani é Cientista Social