Evento
4º Encontro do Núcleo de Cooperação Socioambiental do Norte do Paraná da Itaipu/Parquetec
Rolândia, Pr
22/10/2026
Reflexões de nosso tempo
Construção e desconstrução de visões de mundo*
A estupidez e a
alienação caminham juntas! Somente o alienado e o estúpido votam em seu algoz,
estimam-no e o mitificam. Tomamos como exemplo a metáfora conhecida da abelha e
da mosca. Não precisamos explicar a uma mosca que o mel, como alimento, é muito
mais saudável do que as fezes, o rejeito. A abelha sabe disso, a mosca, jamais
saberá, pois essa é a sua visão, a sua cosmovisão, que retrata sua forma de se
inserir, objetiva e subjetivamente, neste mundo.
Quando sabemos que
aquilo que dizemos não corresponde à verdade, revelamos uma forma insuportável
de alienação. Ela cega, inviabiliza o diálogo, desconsidera os argumentos e
torna invisíveis os fatos, pois suas convicções parecem inabaláveis. Somente
suas próprias deduções e certezas são capazes de justificar sua visão de mundo
e, de sua existência. Assim, não compreendem, não querem compreender as
relações mais profundas que estruturam a sociedade, tampouco o conjunto de
interesses que se estabelece entre os donos dos meios de produção e da riqueza
e aqueles que possuem, essencialmente, a sua força de trabalho e sua capacidade
de luta e de resistência.
Somente ao
reiniciarmos esse processo de formação humana poderemos cultivar um espírito
verdadeiramente humano e construir um modo de vida mais justo, fraterno,
solidário e cooperativo. Esses valores poderão despertar uma consciência
crítica e transformadora, capaz de nos mobilizar para superar a tirania, a
escuridão, a estupidez e a alienação.
Essa é a recuperação
do humano que ainda aguardamos e pela qual trabalhamos. Este é o papel da
academia, dos cientistas, tratarem de forma séria, profunda o momento que
vivemos, um momento delicado, de decisões, mais que eleitorais, são decisões
civilizatórias, por isso unir forças intelectuais e pragmáticas de jovens e
adultos, numa luta de resistência para estabelecer esse salto qualitativo, tão
urgente e necessário, para as questões elementares da vida nesse mundo.
Estamos conscientes
de que nos territórios de vida nasce a consciência crítica de onde emerge a
prática social transformadora. Isso ocorre na defesa do patrimônio ambiental,
na organização comunitária, na economia circular e sustentável na geração de
emprego e renda e na construção das inúmeras alternativas econômicas e
sociais comprometidas com o bem comum.
Para tanto, nessa
caminhada, educamos, conscientizamos e buscamos construir caminhos de lucidez,
clareza e criticidade. Temos a capacidade de entender a caminhada
humana na construção de civilizações que possam garantir a vida plena das
pessoas em seus territórios, em seus países, preservando o que há de mais belo
que é a cooperação, a solidariedade entre os indivíduos, garantindo
respeito a toda diversidade cultural, étnica, sexual e religiosa. Associado a
estas questões temos a compreensão da finitude e limitações planetárias, por
isso que, recuperar, preservar, cuidar e educar para e com a natureza torna-se
fundamental em nosso tempo. Necessitamos garantir as conquistas sociais,
econômicas, ambientais e culturais. Necessitamos de um discurso que alimenta os
sonhos, mas também um discurso racional como resposta as demandas diretas
do cotidiano de vida. É assim que a emancipação de um povo democrático nasce, substituindo uma
consciência subordinada por uma capacidade de pensar, argumentar decidir e agir
de forma autônoma.
Seguimos nessa
direção para que essa transformação possa, enfim, se tornar realidade no
horizonte de nossas possibilidades. Mantemos essa convicção, entendendo, mesmo
que tardiamente, esse dia chegará. Afinal, educar, conscientizar é também semear
a esperança de que outro mundo é possível.
*Paulo Bassani é cientista social
Reflexões de nosso tempo
UM LAMENTO PROFUNDO*
Ensaio
FOLHA DE LONDRINA
Abraço do Lago Igapó: um gesto de paz e compromisso com a cidade*
O abraço pode dizer, silenciosamente: esta cidade é nossa, e o cuidado com ela também é responsabilidade nossa
O abraço
do Lago Igapó, previsto para o dia 27 de setembro, em Londrina, pode ser
compreendido para além de uma manifestação simbólica de carinho por um dos
espaços mais conhecidos da cidade. O abraço coletivo, quando associado à
consciência ambiental, transforma-se em um gesto público de pertencimento, paz
e responsabilidade compartilhada. Não se trata apenas de circundar um lago, mas
de reconhecer que a cidade também se constitui pelos lugares naturais que
acolhe, protege e transmite a todos e às futuras gerações.
O Lago
Igapó é parte de um conjunto de paisagens que conferem identidade a Londrina.
Seus lagos, córregos, fundos de vale, áreas verdes e nascentes não são meros
intervalos na urbanização. São componentes de uma infra-instrutura ecológica
que contribui para a regulação climática, a drenagem, a biodiversidade, a
paisagem e a qualidade de vida. Preservá-los significa cuidar das condições
materiais e simbólicas que tornam a cidade habitável, com qualidade de vida.
Em um
tempo marcado por conflitos, intolerâncias, disputas e formas diversas de
violência, um abraço coletivo pode assumir uma dimensão política no sentido
mais amplo e nobre da palavra: a construção da convivência, da tolerância e o
cuidado com a vida. A paz, nessa perspectiva, não deve ser entendida apenas
como ausência de conflitos. Ela também se expressa na capacidade de uma
comunidade dialogar, cooperar e construir compromissos em torno dos bens que
pertencem a todos. O lago, a água, as árvores, os pássaros, os córregos e os
fundos de vale tornam-se, assim, elementos de uma convivência que ultrapassa os
interesses individuais. O abraço pode dizer, silenciosamente: esta cidade é
nossa, e o cuidado com ela também é responsabilidade nossa.
Assim
nasce o sentimento de pertencimento não somente do fato de morar em determinado
lugar. Ele se fortalece quando as pessoas reconhecem que fazem parte de uma
história, de uma paisagem, de uma comunidade e de um território que merece ser
cuidado. O Lago Igapó integra o imaginário urbano, são quase 70 anos de memória
afetiva com experiências cotidianas de muitas gerações. É lugar de encontro,
caminhada, contemplação, lazer, prática esportiva, convivência familiar e
contato com a paisagem.
Mas,
pertencer é também responsabilizar-se. Quem cuida ama, quem reconhece o lago
como parte de sua vida precisa compreender que sua preservação depende de
atitudes individuais, políticas públicas, planejamento urbano, fiscalização,
educação ambiental e participação social. O abraço, portanto, pode representar
uma passagem importante: do lago como cenário para o lago como patrimônio
socioambiental, do espaço utilizado ao espaço cuidado, da paisagem admirada à
paisagem compreendida em sua complexidade ecológica.
Sendo
assim uma das maiores contribuições de uma iniciativa como essa está na
possibilidade de transformar um ato coletivo em uma experiência educativa. Ela
envolve a formação de valores, sensibilidades, conhecimentos e práticas capazes
de modificar a relação entre sociedade e ambiente.
Abraçar o
Lago Igapó é reconhecer que a cidade também vive em suas águas, em suas
árvores, em seus córregos e fundos de vale. É um gesto de paz, pertencimento e
educação ambiental: cuidar da natureza é cuidar do nosso território e de nossa
casa comum.
*Paulo
Bassani pesquisador e educador ambiental
PUBLICAÇÃO - sexta-feira, 18 de setembro de 2026 – Folha de
LOndrina
Pensar Poético
Paulo Bassani
Pensar Poético
“As atividades econômicas impactam os sistemas naturais e toda a
biodiversidade. Enquanto que a sustentabilidade substantiva, que compreende
diálogos de saberes, formas horizontalizadas de poder e equilíbrio em todas as
relações, tentam conviver harmonicamente com esse patrimônio natural”
Paulo Bassani
Evento 4º Encontro do Núcleo de Cooperação Socioambiental do Norte do Paraná da Itaipu/Parquetec Rolândia, Pr 22/10/2026