Reflexões de nosso tempo
Paulo Bassani é cientista social
Ensaio
FOLHA DE LONDRINA
Abraço do Lago Igapó: um gesto de paz e compromisso com a cidade*
O abraço pode dizer, silenciosamente: esta cidade é nossa, e o cuidado com ela também é responsabilidade nossa
O abraço
do Lago Igapó, previsto para o dia 27 de setembro, em Londrina, pode ser
compreendido para além de uma manifestação simbólica de carinho por um dos
espaços mais conhecidos da cidade. O abraço coletivo, quando associado à
consciência ambiental, transforma-se em um gesto público de pertencimento, paz
e responsabilidade compartilhada. Não se trata apenas de circundar um lago, mas
de reconhecer que a cidade também se constitui pelos lugares naturais que
acolhe, protege e transmite a todos e às futuras gerações.
O Lago
Igapó é parte de um conjunto de paisagens que conferem identidade a Londrina.
Seus lagos, córregos, fundos de vale, áreas verdes e nascentes não são meros
intervalos na urbanização. São componentes de uma infra-instrutura ecológica
que contribui para a regulação climática, a drenagem, a biodiversidade, a
paisagem e a qualidade de vida. Preservá-los significa cuidar das condições
materiais e simbólicas que tornam a cidade habitável, com qualidade de vida.
Em um
tempo marcado por conflitos, intolerâncias, disputas e formas diversas de
violência, um abraço coletivo pode assumir uma dimensão política no sentido
mais amplo e nobre da palavra: a construção da convivência, da tolerância e o
cuidado com a vida. A paz, nessa perspectiva, não deve ser entendida apenas
como ausência de conflitos. Ela também se expressa na capacidade de uma
comunidade dialogar, cooperar e construir compromissos em torno dos bens que
pertencem a todos. O lago, a água, as árvores, os pássaros, os córregos e os
fundos de vale tornam-se, assim, elementos de uma convivência que ultrapassa os
interesses individuais. O abraço pode dizer, silenciosamente: esta cidade é
nossa, e o cuidado com ela também é responsabilidade nossa.
Assim
nasce o sentimento de pertencimento não somente do fato de morar em determinado
lugar. Ele se fortalece quando as pessoas reconhecem que fazem parte de uma
história, de uma paisagem, de uma comunidade e de um território que merece ser
cuidado. O Lago Igapó integra o imaginário urbano, são quase 70 anos de memória
afetiva com experiências cotidianas de muitas gerações. É lugar de encontro,
caminhada, contemplação, lazer, prática esportiva, convivência familiar e
contato com a paisagem.
Mas,
pertencer é também responsabilizar-se. Quem cuida ama, quem reconhece o lago
como parte de sua vida precisa compreender que sua preservação depende de
atitudes individuais, políticas públicas, planejamento urbano, fiscalização,
educação ambiental e participação social. O abraço, portanto, pode representar
uma passagem importante: do lago como cenário para o lago como patrimônio
socioambiental, do espaço utilizado ao espaço cuidado, da paisagem admirada à
paisagem compreendida em sua complexidade ecológica.
Sendo
assim uma das maiores contribuições de uma iniciativa como essa está na
possibilidade de transformar um ato coletivo em uma experiência educativa. Ela
envolve a formação de valores, sensibilidades, conhecimentos e práticas capazes
de modificar a relação entre sociedade e ambiente.
Abraçar o
Lago Igapó é reconhecer que a cidade também vive em suas águas, em suas
árvores, em seus córregos e fundos de vale. É um gesto de paz, pertencimento e
educação ambiental: cuidar da natureza é cuidar do nosso território e de nossa
casa comum.
*Paulo
Bassani pesquisador e educador ambiental
PUBLICAÇÃO - sexta-feira, 18 de setembro de 2026 – Folha de
LOndrina
Pensar Poético
Paulo Bassani
Pensar Poético
“As atividades econômicas impactam os sistemas naturais e toda a
biodiversidade. Enquanto que a sustentabilidade substantiva, que compreende
diálogos de saberes, formas horizontalizadas de poder e equilíbrio em todas as
relações, tentam conviver harmonicamente com esse patrimônio natural”
Paulo Bassani
Ensaio
Paulo Bassani
SAP- Santo Antônio da Platina, Pr
29/08/2026
O sentido democrático da transição*
Há momentos na vida em que a
maior demonstração de compromisso com uma causa não está em permanecer na luta,
mas em saber recuar, observando acompanhando e se fortalecendo. A presidência
de um Conselho Municipal de Meio Ambiente não deve ser compreendida como
propriedade pessoal, espaço de influência particular ou instrumento de grupos
políticos. Trata-se de uma função pública voluntária, ainda que exercida por
representantes da sociedade civil e do poder público, sua legitimidade nasce do
conhecimento ambiental, da participação, da pluralidade e da experiência para recuperar,
preservar, cuidar, avaliar e propor projetos ambientais urbanos e rurais.
Quando uma gestão finaliza, o
comportamento esperado de quem deixa a Presidência deve ser marcado pela
serenidade, pela transparência, pelo respeito às regras democráticas e pelo
compromisso ético do dever cumprido. O dirigente que encerra seu mandato não
deve tentar construir mecanismos de controle, muito menos promover alterações
regimentais destinadas a favorecer uma determinada corrente, grupo ou “chapa”.
A democracia e seus interlocutores pressupõe alternância, autonomia e liberdade
para que diferentes posições possam disputar legitimamente os espaços de
representação.
O problema se torna ainda mais
grave quando está em jogo o Fundo Municipal de Meio Ambiente. Um fundo público
não pertence ao Conselho, à sua Presidência, a uma secretaria ou a qualquer
grupo político. Seus recursos possuem finalidade pública e ambiental, devem
estar submetidos aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência. O Conselho deve exercer controle social sobre esses
recursos, e não transformá-los em instrumento de poder ou moeda de troca
institucional.
É nesse contexto que surge a
figura sociológica daquilo que se convencionou chamar de “Chapa Branca”, uma articulação que,
sob a aparência de participação institucional, procura reproduzir dentro de um
espaço democrático, a lógica de ocupação e controle, próprio das estruturas
políticas tradicionais. Disputar é legítimo, o problema surge quando a disputa
deixa o espírito democrático, para controlar as regras do jogo, os recursos e
as instituições que devem permanecer independentes.
Um Conselho Municipal precisa ser
democrático, não partidário, republicano
não corporativo, comprometido com o território onde exerce seu mandato menos com
projetos ideológicos. Sua dinâmica, e força demonstram um exercício democrático e não na
capacidade de um grupo controlar sua estrutura. Trata-se da capacidade de
reunir diferentes setores da sociedade em torno da defesa ambiental, tão
necessária e fundamental para garantir a qualidade da vida humana nos territórios
onde habitamos.
As lideranças democráticas não se
medem pela capacidade de controlar quem vem depois. Mede-se pela capacidade de
construir um movimento institucional que não precise ser controlada por ninguém,
mas pela participação, transparência e interesse publico
A história, mesmo que tardia,
costuma reconhecer o exercício democrático do poder, dos cargos e das ações correspondentes.
No Consemma, como em qualquer espaço de participação social, a alternância não
deve ser vista como ameaça, ela é, precisamente, uma das condições da
democracia. E quem realmente acredita e defende a causa ambiental, os direitos
da natureza, na recuperação, conservação da biodiversidade e, das causas
educacionais que ela remete, devem compreender que nenhum projeto de sustentabilidade de alto teor, sem adjetivos e sim como
substantivo, pode ser construído sobre a fragilidade da democracia
institucional.
*Paulo Bassani é Cientista Social,
Sociólogo Ambiental e presidente do Consemma de Londrina.
Reflexões de nosso tempo Paulo Bassani é cientista social