Pensar Poético
"Somos seres imaginativos, criativos e com uma capacidade imensa de pensar, construir e de fazer algo que melhore as condições de vida e habitabilidade planetária."
Paulo Bassani é cientista social
26/08/2026
Ensaio
Paulo Bassani
SAP- Santo Antônio da Platina, Pr
29/08/2026
O sentido democrático da transição*
Há momentos na vida em que a
maior demonstração de compromisso com uma causa não está em permanecer na luta,
mas em saber recuar, observando acompanhando e se fortalecendo. A presidência
de um Conselho Municipal de Meio Ambiente não deve ser compreendida como
propriedade pessoal, espaço de influência particular ou instrumento de grupos
políticos. Trata-se de uma função pública voluntária, ainda que exercida por
representantes da sociedade civil e do poder público, sua legitimidade nasce do
conhecimento ambiental, da participação, da pluralidade e da experiência para recuperar,
preservar, cuidar, avaliar e propor projetos ambientais urbanos e rurais.
Quando uma gestão finaliza, o
comportamento esperado de quem deixa a Presidência deve ser marcado pela
serenidade, pela transparência, pelo respeito às regras democráticas e pelo
compromisso ético do dever cumprido. O dirigente que encerra seu mandato não
deve tentar construir mecanismos de controle, muito menos promover alterações
regimentais destinadas a favorecer uma determinada corrente, grupo ou “chapa”.
A democracia e seus interlocutores pressupõe alternância, autonomia e liberdade
para que diferentes posições possam disputar legitimamente os espaços de
representação.
O problema se torna ainda mais
grave quando está em jogo o Fundo Municipal de Meio Ambiente. Um fundo público
não pertence ao Conselho, à sua Presidência, a uma secretaria ou a qualquer
grupo político. Seus recursos possuem finalidade pública e ambiental, devem
estar submetidos aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade,
publicidade e eficiência. O Conselho deve exercer controle social sobre esses
recursos, e não transformá-los em instrumento de poder ou moeda de troca
institucional.
É nesse contexto que surge a
figura sociológica daquilo que se convencionou chamar de “Chapa Branca”, uma articulação que,
sob a aparência de participação institucional, procura reproduzir dentro de um
espaço democrático, a lógica de ocupação e controle, próprio das estruturas
políticas tradicionais. Disputar é legítimo, o problema surge quando a disputa
deixa o espírito democrático, para controlar as regras do jogo, os recursos e
as instituições que devem permanecer independentes.
Um Conselho Municipal precisa ser
democrático, não partidário, republicano
não corporativo, comprometido com o território onde exerce seu mandato menos com
projetos ideológicos. Sua dinâmica, e força demonstram um exercício democrático e não na
capacidade de um grupo controlar sua estrutura. Trata-se da capacidade de
reunir diferentes setores da sociedade em torno da defesa ambiental, tão
necessária e fundamental para garantir a qualidade da vida humana nos territórios
onde habitamos.
As lideranças democráticas não se
medem pela capacidade de controlar quem vem depois. Mede-se pela capacidade de
construir um movimento institucional que não precise ser controlada por ninguém,
mas pela participação, transparência e interesse publico
A história, mesmo que tardia,
costuma reconhecer o exercício democrático do poder, dos cargos e das ações correspondentes.
No Consemma, como em qualquer espaço de participação social, a alternância não
deve ser vista como ameaça, ela é, precisamente, uma das condições da
democracia. E quem realmente acredita e defende a causa ambiental, os direitos
da natureza, na recuperação, conservação da biodiversidade e, das causas
educacionais que ela remete, devem compreender que nenhum projeto de sustentabilidade de alto teor, sem adjetivos e sim como
substantivo, pode ser construído sobre a fragilidade da democracia
institucional.
*Paulo Bassani é Cientista Social,
Sociólogo Ambiental e presidente do Consemma de Londrina.
Ensaio
Meio ambiente não é moeda de
troca: duas atitudes, o mesmo desrespeito*
Há uma preocupante convergência
em duas recentes atitudes da administração pública de Londrina quando
observadas sob a perspectiva da política ambiental: de um lado, a utilização de
recursos do Fundo Municipal de Meio Ambiente para atender despesas da
Secretaria de Educação. De outro, a apresentação à Câmara Municipal de uma
proposta de desapropriação de 18 áreas verdes, praças e fundos de vale para a
implantação de moradias vinculadas ao Programa Minha Casa, Minha Vida.
São medidas distintas em sua
forma, mas que revelam uma mesma concepção política: a de que o meio ambiente
pode ser relativizado, subordinado ou utilizado como variável de ajuste diante
de outras necessidades da administração pública.
O primeiro caso é particularmente
grave porque um Fundo Municipal de Meio Ambiente não constitui uma reserva
financeira genérica do Poder Executivo. Sua existência está vinculada a uma
finalidade pública específica: financiar políticas, programas, projetos e ações
de proteção, recuperação, conservação e educação ambiental. Quando recursos
dessa natureza são deslocados para outra finalidade, ainda que socialmente
relevante como a educação, estabelece-se um problema de desvio de finalidade e de respeito à institucionalidade ambiental.
Não se trata de colocar educação
contra meio ambiente. O problema está em utilizar recursos constitucional e
institucionalmente vinculados à política ambiental para resolver insuficiências
orçamentárias de outra área. Se a educação precisa de recursos, cabe ao
orçamento da educação assegurar esses recursos. Não é aceitável solucionar um
problema institucional criando outro e enfraquecendo o financiamento da
política ambiental.
A segunda iniciativa apresenta
uma questão igualmente delicada. A necessidade de produzir habitação popular é
absolutamente legítima e deve ser reconhecida como prioridade social. O direito
à moradia é fundamental. Entretanto, o
direito à moradia não pode ser colocado em oposição ao direito ao meio ambiente
ecologicamente equilibrado. A Constituição brasileira não estabelece uma
hierarquia que permita sacrificar indiscriminadamente áreas ambientais para
atender políticas habitacionais.
Praças, áreas verdes e fundos de
vale cumprem funções ecológicas, urbanísticas e sociais. Contribuem para a
drenagem urbana, redução de ilhas de calor, conservação da biodiversidade,
permeabilidade do solo, qualidade paisagística, lazer, convivência comunitária
e equilíbrio climático. Em uma cidade que enfrenta os efeitos cada vez mais
evidentes das mudanças climáticas, eliminarem esses espaços significa, muitas
vezes, retirar justamente os elementos naturais que ajudam a cidade a resistir
às próprias consequências de sua expansão desordenada.
Uma administração pública
comprometida com o interesse coletivo deveria buscar primeiro áreas urbanas
degradadas, imóveis públicos subutilizados, terrenos ociosos, vazios urbanos e
alternativas de adensamento que não impliquem a supressão de estruturas
ambientais essenciais. A política habitacional precisa dialogar com o
planejamento urbano, a política ambiental, a mobilidade, o saneamento e a
qualidade de vida.
Há ainda uma questão de fundo que
se refere ao respeito às instituições.
Conselhos municipais, audiências publicas, fundos públicos, legislação
ambiental, instrumentos de planejamento urbano e mecanismos de participação
social não são obstáculos burocráticos à vontade do governante. São
instrumentos criados justamente para impedir que decisões de grande impacto
coletivo sejam tomadas de maneira unilateral ou segundo conveniências políticas
circunstanciais.
Quando um fundo ambiental é
utilizado para uma finalidade estranha à sua natureza, enfraquece-se o próprio
sistema de governança ambiental. Quando áreas verdes são tratadas como terrenos
disponíveis para qualquer finalidade administrativa, enfraquece-se a ideia de
planejamento urbano sustentável. E quando essas decisões são apresentadas como solução
inevitável corre-se o risco de transformar uma necessidade social legítima em demagogia política.
É preciso afirmar com clareza: defender o meio ambiente não significa ser
contra a educação, contra a habitação popular ou contra o desenvolvimento
urbano. Significa defender que essas políticas sejam realizadas de forma
integrada, planejada e juridicamente responsável.
A democrática política pública
não escolhe entre moradia e meio ambiente. Procura garantir moradia com qualidade ambiental, educação com sustentabilidade, desenvolvimento
urbano com planejamento;
crescimento econômico com
responsabilidade ecológica. Londrina não precisa escolher entre justiça social
e justiça ambiental. Precisa de uma administração capaz de compreender que
ambas fazem parte de um mesmo projeto de cidade que queremos viver.
O que está em jogo, portanto, não
são apenas 18 áreas verdes ou os recursos de um fundo municipal. Está em jogo
uma concepção de cidade e de administração pública. O patrimônio ambiental não pertence ao governo. Pertence à sociedade e às
gerações que ainda virão. Por isso, decisões que comprometam áreas
verdes, fundos de vale e recursos destinados à política ambiental devem ser
submetidas aos mais amplos debate público, aos conselhos competentes, aos
estudos técnicos e aos instrumentos legais de controle e participação social.
A administração pública deve ser
responsável não apenas pelo que constrói, mas também pelo que preserva. Londrina
precisa de moradia, educação e desenvolvimento. Mas precisa, igualmente, de
rios vivos, fundos de vale preservados, praças, áreas verdes e uma política
ambiental institucionalmente respeitada.
Defender esses princípios defender a Constituição, o interesse público,
o patrimônio ambiental e o direito das presentes e futuras gerações a uma
cidade ambientalmente equilibrada.
*Paulo
Bassani é cientista social e presidente do CONSEMMA de Londrina.
Artigo
UM PACTO COM A TERRA*
Proposta do Núcleo de Cooperação Socioambiental do Norte do Paraná
A Emergência Climática está ai, com suas
manifestações em todos os continentes. As escolhas que fizemos enquanto espécie
nos trouxe a um ponto crítico da história. Estamos diante do colapso ecológico,
da fragmentação social, das guerras, da fome, do esgotamento ético-moral e
espiritual, e do risco real de inviabilizar o futuro que prometemos às nossas
crianças e aos que virão. O El Niño está ai demonstrando suas garras no
aquecimento global, nos extremos de chuvas torrenciais e longos períodos de
estiagem com abalos marcantes, perdas de vidas humanas e da biodiversidade
existente, em nossos territórios. A civilização como a conhecemos e a Terra,
nossa Casa Comum, clama por um novo começo. Alertamos que ultrapassamos os
limites planetários coma biodiversidade que coloca em risco a reprodução e
estabilidade dos sistemas naturais da Terra.
É com esse senso de urgência, onde as esperanças se
renovam, e o mundo espera novos e possíveis encaminhamentos concretos. Não
apenas para acusar, mas para lembrar. Não para lamentar, mas para despertar.
Ainda há tempo de transformar, ainda é possível reconstruir, recuperar,
recomeçar.
Apontamos aqui um novo horizonte: a construção de um
modelo sustentável, de justiça, compreensão, cooperação e paz. Não como
fantasias idealistas, mas como um paradigma de convivência, justiça e respeito
mútuo entre todos os seres vivos. Um novo modo de ser e viver mais compassivo,
mais equilibrado, eco civilizatório, humano. Com a criação de uma Cultura
Sustentável como orientadora dessa emergente construção. Esse tempo será de uma
Travessia Educativa, regeneradora, pois exigirá a aprendizagem de uma nova
ética. A ética do cuidado, da escuta e da interdependência com tudo e com
todos. Será alternativo, pois rompe com a lógica de dominação que nos separou
uns dos outros e nos desconectou da natureza. E será inédito, porque jamais
tentamos como humanidade, viver plenamente como uma só família planetária, com
uma identidade civilizatória que demonstrara nossa capacidade imaginativa,
criativa como seres pensantes. Neste tempo, nenhum povo, nação, religião,
entidade, homem ou mulher será maior do que o outro. Todos serão partes de uma
mesma Teia da Vida, em um planeta que é ao mesmo tempo finito, único e belo.
Cada cultura será honrada, cada ser vivo respeitado. A diversidade deixará de
ser ameaça e será reconhecida como força que nos une na diversidade cultural.
Não há mais espaço para a ilusão do crescimento infinito,
da exploração desenfreada de combustíveis fósseis. Precisamos de um modo de
viver compatível com os potenciais e os limites do planeta. Um modo de viver
que recupere o sentido, o vínculo, o cuidado, a reverência pela vida. A
construção desse Tempo de Travessia começa em nós. Começa aqui e agora. Ele
nasce toda vez que escolhemos a cooperação em vez da competição, a partilha em
vez da acumulação, o cuidado em vez da destruição. Aqui nos encontramos com uma
Teoria de Mudança e suas práticas que florescem no cotidiano quando cuidamos da
Terra como quem cuida de si, como uma mãe cuida de seus filhos.
Caros seres humanos que vivem pelos diversos
territórios, este é o chamado do nosso tempo. Quebrar o ciclo do medo, da
ganância, da exploração. Curar as feridas abertas, reunir o que foi separado,
recuperar o que foi destruído. Para tanto utilizar dos conhecimentos
científicos agregadores que construímos ao longo dos anos. E juntos, como seres
pensantes, conscientes, imaginativos e criativos redesenhar o futuro. E construir
um design civilizatório com a cara e a alma humana, sempre nos espelhando na
natureza. Este é um convite, um compromisso, um pacto com a vida. Para salvar a
nós mesmos, regenerando o mundo, regenerando nossa espécie para um novo tempo.
*Paulo Bassani é Cientista Social.
Membro da Equipe Gestora do Norte do Paraná – Núcleos de Cooperação
Socioambiental- Itaipu/Parquetec. GEAMA - Grupo de Estudos Avançados Sobre o
Meio Ambiente/UEL
Poema
Um tempo*
Houve um tempo
Em que podia esperar
Hoje já não espero mais.
Houve um tempo
Em que lamentava pela ausência
Hoje apenas uma leve lembrança
Houve um tempo
Em que os dias eram sombrios
Hoje vejo luz em todo lugar.
Houve um tempo de sorrisos amarelos
Hoje há muitas gargalhadas.
Houve um tempo de certezas
Hoje as incertezas aparecem.
Houve um tempo que acreditei
Hoje duvido mais.
Houve um tempo de desilusão
Hoje outros sonhos e utopias renascem.
Houve um tempo que pensei
Hoje penso o tempo todo.
*Paulo Bassani
Pensar Poético "Somos seres imaginativos, criativos e com uma capacidade imensa de pensar, construir e de fazer algo que melhore as co...