Artigo
UM PACTO COM A TERRA*
Proposta do Núcleo de Cooperação Socioambiental do Norte do Paraná
A Emergência Climática está ai, com suas
manifestações em todos os continentes. As escolhas que fizemos enquanto espécie
nos trouxe a um ponto crítico da história. Estamos diante do colapso ecológico,
da fragmentação social, das guerras, da fome, do esgotamento ético-moral e
espiritual, e do risco real de inviabilizar o futuro que prometemos às nossas
crianças e aos que virão. O El Niño está ai demonstrando suas garras no
aquecimento global, nos extremos de chuvas torrenciais e longos períodos de
estiagem com abalos marcantes, perdas de vidas humanas e da biodiversidade
existente, em nossos territórios. A civilização como a conhecemos e a Terra,
nossa Casa Comum, clama por um novo começo. Alertamos que ultrapassamos os
limites planetários coma biodiversidade que coloca em risco a reprodução e
estabilidade dos sistemas naturais da Terra.
É com esse senso de urgência, onde as esperanças se
renovam, e o mundo espera novos e possíveis encaminhamentos concretos. Não
apenas para acusar, mas para lembrar. Não para lamentar, mas para despertar.
Ainda há tempo de transformar, ainda é possível reconstruir, recuperar,
recomeçar.
Apontamos aqui um novo horizonte: a construção de um
modelo sustentável, de justiça, compreensão, cooperação e paz. Não como
fantasias idealistas, mas como um paradigma de convivência, justiça e respeito
mútuo entre todos os seres vivos. Um novo modo de ser e viver mais compassivo,
mais equilibrado, eco civilizatório, humano. Com a criação de uma Cultura
Sustentável como orientadora dessa emergente construção. Esse tempo será de uma
Travessia Educativa, regeneradora, pois exigirá a aprendizagem de uma nova
ética. A ética do cuidado, da escuta e da interdependência com tudo e com
todos. Será alternativo, pois rompe com a lógica de dominação que nos separou
uns dos outros e nos desconectou da natureza. E será inédito, porque jamais
tentamos como humanidade, viver plenamente como uma só família planetária, com
uma identidade civilizatória que demonstrara nossa capacidade imaginativa,
criativa como seres pensantes. Neste tempo, nenhum povo, nação, religião,
entidade, homem ou mulher será maior do que o outro. Todos serão partes de uma
mesma Teia da Vida, em um planeta que é ao mesmo tempo finito, único e belo.
Cada cultura será honrada, cada ser vivo respeitado. A diversidade deixará de
ser ameaça e será reconhecida como força que nos une na diversidade cultural.
Não há mais espaço para a ilusão do crescimento infinito,
da exploração desenfreada de combustíveis fósseis. Precisamos de um modo de
viver compatível com os potenciais e os limites do planeta. Um modo de viver
que recupere o sentido, o vínculo, o cuidado, a reverência pela vida. A
construção desse Tempo de Travessia começa em nós. Começa aqui e agora. Ele
nasce toda vez que escolhemos a cooperação em vez da competição, a partilha em
vez da acumulação, o cuidado em vez da destruição. Aqui nos encontramos com uma
Teoria de Mudança e suas práticas que florescem no cotidiano quando cuidamos da
Terra como quem cuida de si, como uma mãe cuida de seus filhos.
Caros seres humanos que vivem pelos diversos
territórios, este é o chamado do nosso tempo. Quebrar o ciclo do medo, da
ganância, da exploração. Curar as feridas abertas, reunir o que foi separado,
recuperar o que foi destruído. Para tanto utilizar dos conhecimentos
científicos agregadores que construímos ao longo dos anos. E juntos, como seres
pensantes, conscientes, imaginativos e criativos redesenhar o futuro. E construir
um design civilizatório com a cara e a alma humana, sempre nos espelhando na
natureza. Este é um convite, um compromisso, um pacto com a vida. Para salvar a
nós mesmos, regenerando o mundo, regenerando nossa espécie para um novo tempo.
*Paulo Bassani é Cientista Social.
Membro da Equipe Gestora do Norte do Paraná – Núcleos de Cooperação
Socioambiental- Itaipu/Parquetec. GEAMA - Grupo de Estudos Avançados Sobre o
Meio Ambiente/UEL
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