Reflexões de nosso tempo
Paulo Bassani
Construção e desconstrução de visões de mundo*
A estupidez e a
alienação caminham juntas! Somente o alienado e o estúpido votam em seu algoz,
estimam-no e o mitificam. Tomamos como exemplo a metáfora conhecida da abelha e
da mosca. Não precisamos explicar a uma mosca que o mel, como alimento, é muito
mais saudável do que as fezes, o rejeito. A abelha sabe disso, a mosca, jamais
saberá, pois essa é a sua visão, a sua cosmovisão, que retrata sua forma de se
inserir, objetiva e subjetivamente, neste mundo.
Quando sabemos que
aquilo que dizemos não corresponde à verdade, revelamos uma forma insuportável
de alienação. Ela cega, inviabiliza o diálogo, desconsidera os argumentos e
torna invisíveis os fatos, pois suas convicções parecem inabaláveis. Somente
suas próprias deduções e certezas são capazes de justificar sua visão de mundo
e, de sua existência. Assim, não compreendem, não querem compreender as
relações mais profundas que estruturam a sociedade, tampouco o conjunto de
interesses que se estabelece entre os donos dos meios de produção e da riqueza
e aqueles que possuem, essencialmente, a sua força de trabalho e sua capacidade
de luta e de resistência.
Somente ao
reiniciarmos esse processo de formação humana poderemos cultivar um espírito
verdadeiramente humano e construir um modo de vida mais justo, fraterno,
solidário e cooperativo. Esses valores poderão despertar uma consciência
crítica e transformadora, capaz de nos mobilizar para superar a tirania, a
escuridão, a estupidez e a alienação.
Essa é a recuperação
do humano que ainda aguardamos e pela qual trabalhamos. Este é o papel da
academia, dos cientistas, tratarem de forma séria, profunda o momento que
vivemos, um momento delicado, de decisões, mais que eleitorais, são decisões
civilizatórias, por isso unir forças intelectuais e pragmáticas de jovens e
adultos, numa luta de resistência para estabelecer esse salto qualitativo, tão
urgente e necessário, para as questões elementares da vida nesse mundo.
Estamos conscientes
de que nos territórios de vida nasce a consciência crítica de onde emerge a
prática social transformadora. Isso ocorre na defesa do patrimônio ambiental,
na organização comunitária, na economia circular e sustentável na geração de
emprego e renda e na construção das inúmeras alternativas econômicas e
sociais comprometidas com o bem comum.
Para tanto, nessa
caminhada, educamos, conscientizamos e buscamos construir caminhos de lucidez,
clareza e criticidade. Temos a capacidade de entender a caminhada
humana na construção de civilizações que possam garantir a vida plena das
pessoas em seus territórios, em seus países, preservando o que há de mais belo
que é a cooperação, a solidariedade entre os indivíduos, garantindo
respeito a toda diversidade cultural, étnica, sexual e religiosa. Associado a
estas questões temos a compreensão da finitude e limitações planetárias, por
isso que, recuperar, preservar, cuidar e educar para e com a natureza torna-se
fundamental em nosso tempo. Necessitamos garantir as conquistas sociais,
econômicas, ambientais e culturais. Necessitamos de um discurso que alimenta os
sonhos, mas também um discurso racional como resposta as demandas diretas
do cotidiano de vida. É assim que a emancipação de um povo democrático nasce, substituindo uma
consciência subordinada por uma capacidade de pensar, argumentar decidir e agir
de forma autônoma.
Seguimos nessa
direção para que essa transformação possa, enfim, se tornar realidade no
horizonte de nossas possibilidades. Mantemos essa convicção, entendendo, mesmo
que tardiamente, esse dia chegará. Afinal, educar, conscientizar é também semear
a esperança de que outro mundo é possível.
*Paulo Bassani é cientista social


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