Ensaio
FOLHA DE LONDRINA
Abraço do Lago Igapó: um gesto de paz e compromisso com a cidade*
O abraço pode dizer, silenciosamente: esta cidade é nossa, e o cuidado com ela também é responsabilidade nossa
O abraço
do Lago Igapó, previsto para o dia 20 de setembro, em Londrina, pode ser
compreendido para além de uma manifestação simbólica de carinho por um dos
espaços mais conhecidos da cidade. O abraço coletivo, quando associado à
consciência ambiental, transforma-se em um gesto público de pertencimento, paz
e responsabilidade compartilhada. Não se trata apenas de circundar um lago, mas
de reconhecer que a cidade também se constitui pelos lugares naturais que
acolhe, protege e transmite a todos e às futuras gerações.
O Lago
Igapó é parte de um conjunto de paisagens que conferem identidade a Londrina.
Seus lagos, córregos, fundos de vale, áreas verdes e nascentes não são meros
intervalos na urbanização. São componentes de uma infra-instrutura ecológica
que contribui para a regulação climática, a drenagem, a biodiversidade, a
paisagem e a qualidade de vida. Preservá-los significa cuidar das condições
materiais e simbólicas que tornam a cidade habitável, com qualidade de vida.
Em um
tempo marcado por conflitos, intolerâncias, disputas e formas diversas de
violência, um abraço coletivo pode assumir uma dimensão política no sentido
mais amplo e nobre da palavra: a construção da convivência, da tolerância e o
cuidado com a vida. A paz, nessa perspectiva, não deve ser entendida apenas
como ausência de conflitos. Ela também se expressa na capacidade de uma
comunidade dialogar, cooperar e construir compromissos em torno dos bens que
pertencem a todos. O lago, a água, as árvores, os pássaros, os córregos e os
fundos de vale tornam-se, assim, elementos de uma convivência que ultrapassa os
interesses individuais. O abraço pode dizer, silenciosamente: esta cidade é
nossa, e o cuidado com ela também é responsabilidade nossa.
Assim
nasce o sentimento de pertencimento não somente do fato de morar em determinado
lugar. Ele se fortalece quando as pessoas reconhecem que fazem parte de uma
história, de uma paisagem, de uma comunidade e de um território que merece ser
cuidado. O Lago Igapó integra o imaginário urbano, são quase 70 anos de memória
afetiva com experiências cotidianas de muitas gerações. É lugar de encontro,
caminhada, contemplação, lazer, prática esportiva, convivência familiar e
contato com a paisagem.
Mas,
pertencer é também responsabilizar-se. Quem cuida ama, quem reconhece o lago
como parte de sua vida precisa compreender que sua preservação depende de
atitudes individuais, políticas públicas, planejamento urbano, fiscalização,
educação ambiental e participação social. O abraço, portanto, pode representar
uma passagem importante: do lago como cenário para o lago como patrimônio
socioambiental, do espaço utilizado ao espaço cuidado, da paisagem admirada à
paisagem compreendida em sua complexidade ecológica.
Sendo
assim uma das maiores contribuições de uma iniciativa como essa está na
possibilidade de transformar um ato coletivo em uma experiência educativa. Ela
envolve a formação de valores, sensibilidades, conhecimentos e práticas capazes
de modificar a relação entre sociedade e ambiente.
Abraçar o
Lago Igapó é reconhecer que a cidade também vive em suas águas, em suas
árvores, em seus córregos e fundos de vale. É um gesto de paz, pertencimento e
educação ambiental: cuidar da natureza é cuidar do nosso território e de nossa
casa comum.
*Paulo
Bassani pesquisador e educador ambiental
PUBLICAÇÃO - sexta-feira, 18 de setembro de 2026 – Folha de
LOndrina

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