Artigo
Reflexões acerca da natureza e do capital*
Desde a Revolução Industrial, a natureza passou a ser tratada como uma externalidade, tanto para a ação humana quanto para a lógica do capital. Ficou ausente, a dinâmica da natureza, dos cálculos econômicos, ocorreu um desencontro, foi reduzida a um recurso a ser explorado não preservado, restaurado ou cuidado. Os ideólogos desse período não a concebiam como um bem finito e limitado, pelo contrário.
Hoje, porém, diante do aquecimento global e das mudanças climáticas, já perceptíveis, mensuráveis e vividas em todas as regiões do planeta, torna-se inevitável repensar essa relação nos mesmos termos em que o capital foi originalmente constituído.
Reconhecer e agir frente a essa realidade torna-se uma necessidade premente. O estágio científico a que chegamos nos possibilita compreender, em grande medida, tanto o funcionamento da natureza quanto o do capital. A natureza segue sua própria lógica de vida, expressa em suas águas, na vegetação, nos animais e em todos os seres que compartilham conosco este planeta. O capital, por sua vez, opera segundo uma lógica dominadora, impactante e, muitas vezes, destrutiva.
Para que possa continuar existindo, essa lógica precisará necessariamente se transformar. Mas como alterar sua essência sem que continue a reproduzir, ainda que de forma atenuada, os mesmos padrões de exploração? Não há como suavizar as presas de um lobo sem reduzir sua voracidade, com afirma Leonardo Boff.
Hoje, já não é basta avançar sob a ideia de “desenvolvimento sustentável”. Trata-se, em grande parte, de uma requalificação conceitual que apenas retarda a dinâmica de dominação, sem superá-la. Essa lógica persiste, reaparece e continuamente em todos os espaços, em todas as formas. As taxas de lucro não cedem facilmente a princípios que buscam moderá-las. Tais iniciativas tendem a funcionar como modelagens, que atendem muitas vezes a quesitos legais, porém disfarçam mas não eliminam a força estrutural que sustenta e impulsiona o próprio sistema.
O que podemos tirar de lição dessa reflexão é de que se o capital vier a sucumbir, uma infinidade de tipos de produção, consumo e de relações sociais começarão a emergir. Este é um dos papéis da filosofia pensar novos perspectivas “O filósofo é o homem de amanhã, aquele que recusa o ideal do dia, aquele que cultiva a utopia.” Friedrich Nietzsche. Contornos modelares começarão a emergir a partir de experiências que não tenham as mesmas características do capital. Comunidades, sociedades, alternativas e libertas desse ideal capitalista poderão demonstrar seus primeiros sinais. Mesmo porque não será algo substitutivo pronto e acabado, sempre serão construções que terão como ótica de não repetir os mesmo passos anteriores que levaram a essas transformações descritas reiteradamente.
Será um tempo de novos experimentos socioeconômicos, socioculturais e de nossa relação com a natureza, que estabelecerão roteiros junto às populações. Os passos e a intensidade desses, terão sua própria maneira de determinar-se perante os atores, que estarão em cena nesse futuro imediato.
Será um tempo não de uma economia e ecologia rasa. Será um tempo de uma economia e ecologia integral. Uma economia integral com as formas de atender as necessidades humanas respeitando, zelando e cuidando dos ciclos próprios da natureza. Nessa condição acreditamos não no final do mundo, mas no final de um tipo de mundo que ainda respira.
Se nessa constituição somos a parte e o todo, somos esse entrelaçamento entre natureza e economia, formando a comunidade de vida humana e econômica. Porque somos humos, terra fértil, que se constituiu a humanidade. Como afirma Leonardo Boff, (pág. 252) “Somos a razão sensível e cordial que funda o respeito à alteridade, à ética do cuidado e à responsabilidade universal” Acreditando na eterna busca por novas formas de socialização, assim nos tornamos humanos cuidadosos com tudo e com todos que coabitam a Casa Comum.
Haverá rejeição, resistências, formas não inteligíveis, porém isso é próprio da história, nenhuma ciência, tecnologia, inovação, modelo recebeu e nem receberá todos os reconhecimentos, até devido a complexidade humana, haverá um ganho, haverá uma perda. Porém sua determinação terá que ter o vigor, a vibração e a forma dialógica que se estabelecerá, nessa forma de habitar o mundo diferenciada das formas anteriores.
Isso posto, faz-se ressurgir algo próprio de nossa espécie que são as utopias, como dizia o filósofo Alfhonse de Lamartine “São verdades pré-maturas”, são virtualidades ainda não ensaiadas, não experimentadas, mas que se determinam como práticas que podem reencantar a vida. O poeta gaúcho, Mario Quintana enunciava “Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las… Que tristes os caminhos, se não for presença distante das estrelas!” Esse re-encantamento é o que buscamos, é o que os humanos buscam.
*Paulo Bassani é cientista social
CRC/E-LETRO Londrina, Paraná.

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